Corote… Sabor de Saudade
Uma carta sobre a arte de se despedir de si mesmo.
Espero que esta te encontre e que estejas bem.
Essa é para ser uma carta de despedida. Mas não sei se consigo. É como se eu estivesse me despedindo, de certa forma, de mim mesmo. Isso me assusta. É como se minhas raízes, de repente, fossem extirpadas e eu, sem chão, pairasse no ar, sem saber onde pousar, mesmo que a passagem esteja comprada e o destino seja certo.
Sei que deve estar se sentindo só, mas não tive escolha. Sabíamos que um dia o destino — ou o trabalho — nos separaria. Te conhecendo da forma que conheço, tu deves estar escrevendo algum texto, assistindo a algum filme, tentando obscurecer aquilo que permeia teus dias: a ausência. Pega aquele corote de pêssego, sempre presente em tua geladeira, e serve-te. Sente o aroma doce, artificial e pungente tomar conta de tuas narinas. Toma um gole, como fazíamos em nossas festas. Espero que o sabor te traga algumas lembranças. Lembra-te de mim. Lembra-te de nós. E quero que saibas que eu te entendo, pois, assim como tu, eu também sinto saudades.
É bom que a saudade exista, mas não é bom senti-la por muito tempo: a saudade só é boa porque passa.
Este é o sentimento que domina os meus dias. Mudar de cidade, afastar-se mais de mil quilômetros da própria história… é algo que não se explica logicamente, mas se sente. É como se toda uma vida fosse deixada para trás — o que de fato acontece. Mas isso passa. É estranho pensar que tudo que já vivenciei, todos que conheci, desde os mínimos detalhes, as pequenas coisas — aquela mancha na parede, o cheiro do café (e dos álcoois), o som da chuva — tudo isso ficará para trás.
Penso que o pior momento de uma despedida não é o momento do adeus, do até logo, do até breve. Não é o momento do abraço apertado, do choro, do aperto no peito nem do nó na garganta. Todos ali estão cientes de que há uma data de validade para o encontro — ou melhor, desencontro. Da mesma forma, não é o momento do embarque, do avião decolando, do ônibus desaparecendo no horizonte. Sei que observar o avião fenecer no limiar da memória e da presença, tornando-se cada vez menor, é doloroso. Mas a pessoa ainda continua na vista e, de certa forma… próxima.
Porém, não é o pior momento.
A pior parte de uma despedida são os dias que vêm depois. São os dias seguintes ao adeus. Eles são vazios, tomados por uma ausência, uma… falta. Falta das risadas, das conversas, das histórias, dos momentos vívidos e vividos. A saudade que aperta, a vontade que corrói… É quando se percebe que as dinâmicas agora são outras, que o outro inexiste em sua presença, transmutada em ausência. É quando se percebe que a vida seguiu por um caminho diferente. Nesse momento, o verdadeiro peso da despedida se faz sentir.
Porém, não fiques triste. Não chores porque acabou. Lembra-te: saudade se conquista; ela é a prova de que algo importante aconteceu, num momento único. Só se sente saudade daquilo que se pode perder — ou que já perdemos —, por isso sentimos uma saudade antecipada enquanto certos momentos ocorrem: sabemos da preciosidade daquele instante e o quanto ele é efêmero. Fica feliz por saber que estes momentos que tu te recordas aconteceram. Quando as cores vibrantes dos copos coloridos de corote tomarem conta de tua visão… sorri! As saudades mais dolorosas e quase insuperáveis são aquelas de coisas que nunca chegaram a acontecer, o que não se aplica aqui: tivemos a sorte de ter vivenciado esses momentos. Cada experiência é única e insubstituível. E, mesmo que a distância nos separe, as memórias que construímos permanecerão vivas em nossos corações.
Com o tempo, a dor suaviza. A saudade se torna suportável. E a vida? Bem, ela continua. Quem sabe um dia tudo volte a ser como era antes. Ou talvez não! Quando tomares novamente aquele corote, com aquele sabor de saudade, lembra-te de mim. Por tudo que vivemos… Por tudo que fomos e tudo que somos.
Quem tem um amigo, mesmo que distante, nunca está só. Somente alguns milhares de quilômetros de distância nos separam. Já sobrevivemos a coisas piores, tu bem sabes. Nossa amizade é maior que os textos podem comportar. Nossa história não cabe em um ponto final, até porque nunca foi um fim, e sim um recomeço. E quando a saudade apertar… nada que uma ligação, uma mensagem ou um vídeo não possam resolver, e, quem sabe, uma visita, seja nas memórias ou em uma rodoviária qualquer
Com carinho,
Eu que parto



É isso, eu quero esta em dois lugares ao mesmo tempo. Nao queria me despedir, mas a vida tem que seguir.